Venho trabalhando há algum tempo a partir de entrelaçamentos, tessituras e relações que possam ser estabelecidas entre o cinema e a educação, principalmente no campo da formação docente, e percebo este exercício que estamos experimentando agora como uma forte oportunidade para dialogarmos sobre questões que nos angustiam, questões que nos atravessam.
Assim sendo, antes de pontuar alguns elementos que me parecem pertinentes a partir desta narrativa fílmica, acredito que seja relevante situar qual é minha posição, onde me coloco em relação a estas questões que iremos debater.
Desta forma, me coloco desde uma posição que percebe e entende a visualidade do cinema como uma possibilidade de pensar sobre nós mesmos, que abarca uma perspectiva rizomática de construção de saberes, ou seja, que desde a perspectiva dos estudos da cultura visual e do construcionismo, pretende refletir sobre o impacto destas imagens fílmicas em nossos processos de subjetivação e reconceitualização daquilo temos presente em nossa cotidianidade.
Recorrendo outra vez ao Professor Fernando Hernández, igualmente acredito que “Não vemos uma película, mas a narramos”, isto é, nos aproximamos dela, nos reconhecemos nela, enxergamos nossas histórias nestas histórias, ativamos a nossa “voz interior” que nos conta, emite juízos de valor, nos redireciona, ativa outros sentimentos, contrapõe/justapõe imagens, conecta a memórias, e ao final da projeção, já temos construída, em cada um de nós uma outra narrativa. Tudo isso de acordo com o olho “cultural” que temos, próprio de cada contexto e período que vivemos.
O documentário “Pro dia nascer feliz”, do João Jardim nos apresenta um mosaico de histórias de vida, de relatos, de personagens reais, de imagens, cenas, quadros e/ou enquadres que nos remetem a situações de conflito entre ensinantes e aprendizes, que nos mostra o vácuo que existe entre estes dois protagonistas dos nossos sistemas educativos. Explicita uma “cultura docente” que se choca com um “jeito” adolescente e juvenil de relações, comportamentos, linguagens, códigos, corporeidades, que, mesmo em distintas realidades (pública ou privada) se assemelham no que tange aos conflitos. Se no nordeste, no extremo das carências, das dificuldades materiais, de deslocamento, das necessidades básicas do humano, a falta de professores, a ineficiência das políticas públicas e governamentais impedem que meninos e meninas deixem de sonhar e escrever poesias para voltar-se ao trabalho em busca do sustento, no outro extremo, em uma escola privada, o drama existencial das adolescentes, as angústias provocadas por viver em um tempo de incertezas, de efemeridades e do “mal estar contemporâneo” (Bauman), ainda assim, se percebe que os conflitos existem e aumentam cada vez mais, pois, como desabafa uma professora: “os professores até estão preparados…mas não estão preparados para este tipo de aluno… a escola segue desatualizada” presa a um sistema que não dá mais conta de sua função, como foi criada séculos atrás.
Isso se percebe nas cenas que refletem o contexto da sala de aula: os olhares vazios, os silêncios e também os ruídos. Aqui poderia trazer presente as imagens que evoca “entre les murs”, a película francesa de recente impacto nas instituições de ensino que igualmente ao documentário do João Jardim, propõe-se a mostrar como é o contexto de uma sala de aula, como é grande a necessidade de um giro em nosso sistema atual.
Ao contrário nas produções norte americanas que mostram professores e feitos heroicos (transformam a vida de seus alunos, doam-se por causas mais justas, renunciam à suas famílias para “tomar sua cruz” e seguir adiante) aqui não se maquia, não se espetaculariza, mas mostra professoras cansadas, humanas, defendendo seus pontos de vistas sem nenhum romantismo. Apenas a professora da escola privada aparenta maior tranquilidade.
É aqui que, em meu ponto de vista, reside um dos pontos baixos do filme: acentua demasiado as diferenças entre a escola pública e a privada, colocando a privada quilômetros a frente do sistema público. Sabemos que estes problemas existem em muitas escolas da rede pública, assim como existem também iniciativas interessantes, da mesma forma que na rede privada. Minha crítica é em relação à tendência natural que se tem de tomar como verdade “público = fracasso”.
Obviamente que choca ouvir o relato da menina que toma a vida de outra adolescente de forma agressiva, ouvir meninos falando da falta de perspectiva de futuro, enfim, as cenas finais da narrativa que mostram cenários assustadores.
No tempo em que nos inserimos, com tantos avanços na área tecnológica e também no campo educativo, por que a escola continua com sua estrutura arcaica e baseada no disciplinamento e respondendo apenas ao sistema de mercado, preparando futuros trabalhadores? Será que neste tempo de incertezas e dúvidas ainda cabe pensar somente em “preparar” nossas crianças, adolescentes e jovens para o “mercado de trabalho”? E suas questões subjetivas, suas fantasias, seus desejos, seus tempos de maturação, suas descobertas? Que espaços são oferecidos a estas criaturas para pensarem sobre si mesmas e sobre o mundo que habitam? Em decorrência de estes e outros fatores, percebo adolescentes que vivem em contextos pedagogizados, que não têm o direito de construir-se, de experimentar, de lançarem-se, pois recebem tudo pronto, não fazem seus próprios esquemas; adolescentes que super valorizam o TER , obcecados pelo consumo e que dão pouca referência ao SER. E retorno à questão: O que estamos fazendo? Em que realmente estamos contribuindo?
agosto 28, 2011 às 10:02 pm |
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